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16/MARÇO/08 |
Margareth Botelho
Além da antiga lista de pecados capitais – soberba, ganância, luxúria, gula, ira, inveja e preguiça – a Igreja Católica reforçou a dose, incluindo o que seriam os pecados da vida moderna e relacionou-os: manipulação genética, uso de drogas, desigualdade social, poluição ambiental e pedofilia. Como diria minha mãe em sua mineirice, gostaria de dar uma pitaca neste assunto. Enquanto os católicos apregoam a luta contra as drogas, a miséria social, respeito à natureza e o combate à pedofilia, parece até tudo muito bem. Mas tenho dúvida sobre o que chamam de manipulação genética e o peso de uma conceituação como a de pecado.
No Brasil, a manipulação genética espera por um julgamento do Supremo Tribunal Federal. No dia 5 de março último, alheios a uma legião de cadeirantes, pessoas usando muletas e portadores de doenças graves e degenerativas, o julgamento da Ação de Inconstitucionalidade (Adin) da Lei de Biossegurança foi adiado por um pedido de vistas. Por enquanto aos olhos da lei em nosso país, a esperança da medicina evoluir está nas mãos de respeitáveis ministros do STF. Um voto a favor significa esperança para milhões de pessoas. Um voto contra representa uma sentença de morte.
Confesso conhecer muito pouco do ponto de vista técnico sobre as experiências na área genética, mas entendo que se esse Deus tão proclamado pelos católicos e por outras religiões deu inteligência ao homem para pesquisar e encontrar cura para as doenças, por que a resistência tão radical, que impõe à medicina um obscurantismo hipócrita? Na verdade, todos nós sabemos que as experiências estão sendo feitas e o melhor é que sejam transparentes e à luz do conhecimento de cientistas realmente sérios e comprometidos e não aqueles ligados umbilicalmente com multinacionais que apenas desejam salvaguardar um direito futuro de explorar medicamentos de altíssimo custo e dominarem o "mercado da cura", como ocorreu com o AZT, o coquetel que garante sobrevida aos portadores de HIV.
Na Constituição do Brasil, o direito à saúde é inalienável, portanto a discussão sobre biossegurança parece ser extemporânea e, francamente, se tivesse um filho ou parente que dependesse do uso de células-tronco, embrionárias, ou seja lá como se fala, para alcançar a cura de uma doença, estaria sim engrossando o coro de milhares de pais em Brasília que no momento "rogam" aos ministros do STF que tenham discernimento para votarem a favor da vida. Creio que as pesquisas sobre "o agora pecado da manipulação genética" estejam cercadas de desinformação. Mistura-se propositalmente a esse debate a questão da liberação do aborto, os direitos do nascituro e a grande pergunta: "Quando de fato começa a vida?"
Nesse momento me vem à cabeça uma interrogação. Estaríamos também pecando quando permitimos a realização de um transplante de órgãos? Não, dizem em uníssono os religiosos. Paradoxalmente, aos olhos da sociedade, este é um gesto de grande nobreza, tido como louvável por parte da família que, afundada na dor de uma perda, ainda é capaz de pensar em seu semelhante e salvar uma outra vida.
Enfim, por tudo isso, em nome desse Deus, que deu ao homem a inteligência, confesso meu pecado "por minha culpa, minha máxima culpa": sou a favor das pesquisas envolvendo manipulação genética.
Margareth Botelho é jornalista em Cuiabá e diretora de Redação de A Gazeta. E-mail: margareth@gazetadigital.com.br
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