“Sempre tive nojo desse órgão sexual, quero tirar tudo”

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FOLHA DE S. PAULO – SP | SAÚDE

LGBT

12/09/2010


O chapeiro João Vitor, que faz tratamento hormonal há três anos, só esperava a autorização do CFM para planejar a cirurgia

DE SÃO PAULO

Depoimento de João Vitor Gonçalves dos Santos, 25, nascido Josiane. Profissão: chapeiro em uma lanchonete. Vive em Tramandaí, a 120 km de Porto Alegre:

“Desde criança, eu sempre me senti homem. Vestia vestidos e coisas femininas por imposição familiar, mas odiava. A partir dos 12 anos, começou a minha virada. Com 15, me assumi. Contei pra todo mundo que gostava de mulher e cortei os cabelos. Bem curtinhos.

Meu pai é pedreiro, a mãe é do lar. Tenho duas irmãs mais velhas e um irmão mais novo. Na família, não tem nenhum caso como eu.

Na escola, eu era muito solitário. O pessoal sempre me excluía dos trabalhos em equipe porque eu era diferente. Até que a diretora da escola percebeu a situação e colocou minha irmã na mesma turma, para que a gente fizesse os trabalhos juntos.

Com 19 anos, me apaixonei por uma menina e comecei a namorar.

Sempre gostei de ser o máximo de homem possível. Eu não gosto de ser chamado de LÉSBICA. Sinto-me totalmente homem -como um homem que nasceu com um defeito nos órgãos genitais, só isso.

Penso como um homem. O homem assume a família -toda a autoridade e a responsabilidade pela casa são do homem. Eu sou assim. É meio ultrapassado isso, mas é assim que é. Independência financeira, trabalhar, sustentar os filhos, são coisas de homem com as quais me identifico.

Até mesmo quanto à preferência por objetos e esportes, me sinto homem. Mulher em geral não gosta de futebol. Gosta de moda, de glamour, vaidade excessiva. Sempre gostei de futebol, de carros. Sou Colorado.

Eu gosto de estar bem vestido, mas como homem. Estou sempre com os cabelos bem cortados, bem aparados. Sempre limpo e asseado. Eu me policio bastante por essa forma de pensar -sei que é um jeito machista de ver as coisas. Mas eu aprendi a pensar desse jeito com meu pai e com meus primos.

Desde criança, eu sempre tive nojo de ter o órgão sexual que tenho. Mas eu não sabia que era possível mudar isso. Não sabia das cirurgias. Quando eu soube, quis.

Meu corpo era normal. Eu ficava menstruad… tinha funções normais. O formato do meu corpo nunca foi lá muito feminino, porque desde cedo eu jogava bola, fazia muito esporte. Meu corpo sempre foi muito forte.

Com 22 anos, procurei o Hospital das Clínicas de Porto Alegre, que é um hospital público, e comecei a fazer um tratamento hormonal e psiquiátrico, além de consultar urologistas.

Voz, pelos, músculos -tudo mudou depois do início do tratamento hormonal.

Minha primeira namorada achava que o caso comigo era um caso entre duas mulheres. Quando resolvi mudar de sexo, tive de enfrentar a situação sozinho.

Foi uma felicidade encontrar tantas pessoas como eu. Antes de saber que era possível, eu era uma pessoa depressiva. Ficar a vida inteira com aquele corpo era um terror para mim.

Vi que eu estava no caminho certo. Era incrível. Clareou a minha vida. Deu uma outra motivação.

Ainda não fiz nenhuma operação. Estava aguardando a autorização. Ainda tenho peitos, vagina. Não fico mais menstruad… -parou quando comecei o tratamento hormonal. Minha vida sexual já melhorou demais. Agora sou mais confiante.

Não tenho dúvida nenhuma de que quero tirar peito, ovário e útero,

No trabalho, no início, só quem sabia da minha condição era o meu chefe. Porque eu tenho vergonha e queria evitar piadinhas de mau gosto. Mas depois, a notícia se espalhou. Mesmo assim, o pessoal me respeita.

É que não há como dizer que eu seja uma mulher. As pessoas não acham nem traço de feminilidade em mim. Então não há como me tratar com preconceito. O preconceito deixou de existir.

Muitas lésbicas me criticam porque acham que eu não me assumo; outras me veem como concorrente. Mas eu me sinto como um homem heterossexual. Prefiro mulheres e femininas. Sou extremamente hétero nessa parte.

Os médicos não têm comprensão do sofrimento de gente como eu. Agora, chega o verão, o pessoal quer mostrar o corpo. E eu, que vivo a poucas quadras da praia, tenho de me esconder. É o meu período de hibernação. Tenho de colocar três ou quatro camisetas para esconder o volume dos seios. O verão é a pior estação para mim.”

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