Na tristeza e na alegria, na doença e na saúde. O amor suave e forte de Rosa e o pescador. O companheiro por 14 janeiros e dezembros, pescador, converte-se em lembrança.
“Era um tirador de caranguejo. Homem valente, forte. Tudo isso ele foi pra mim… Apesar de que todo casal tem umas briguinha, uns ‘desaquetozim’, mas era um pescador excelente, pra mim”, retrata Rosa (o nome é fictício, a pedido dela), 51, serenamente, em meio ao ir e vir do Hospital São José. A noite vai pousando, uma vez mais, naquela tarde de outubro.
Na UTI, o pescador se prepara para zarpar, pela derradeira vez. “Tô perdendo ele, porque já tá em coma, o cérebro morreu já. Tá só o coraçãozinho e o pulmão funcionando, mas à força dos aparelhos”. É outono, em Rosa. O pescador se despede, no auge dos 48 anos. “A gente íamos casar agora e não deu tempo”.
Era desejo dele, desde que avistou Rosa na caranguejada do fim de semana. Pescaram um ao outro, numa conversa mansa. Até que ela preveniu: “Não vou ter nada com você porque sou SOROPOSITIVA, não posso”. Mas o que seria do amor se não fossem as impossibilidades? “A gente se conhecemo um dia, no outro, juntemo os trapo, como se diz!”, é quando Rosa sorri. A casa foi emprestada dum primo, nem coberta era. “Nós não tinha nada pra botar dentro. Mas fomos, só com a coragem”, segue Rosa, carregando o vírus HIV há 20 anos.
A vida dela era errante, até se abrigar na vida do pescador. “Ele me deu um lar, me deu dignidade”, reconhece. Hoje, na praia onde mora, “sou dona Rosa…”. E foi assim: na alegria e na tristeza, na saúde e na doença.
“Quando eu tava doente, ele conversava comigo, tinha o maior cuidado. Levava eu pro banheiro, me banhava, tinha a maior paciência”, refaz. Da mesma forma ela se revezava, quando ele adoecia: “Passava a noite acordada. Quando ele dizia que tava com dor de cabeça, eu falava: ‘Meu filho, tome remédio, se deite e fique bem quietinho, que passa já, já’. Aí, cobria ele”.
O pescador se tornou SOROPOSITIVO porque resistiu usar o PRESERVATIVO nas relações sexuais. Pegou o vírus de Rosa, mas nunca a culpou. Pelo contrário. Tomou Rosa como amiga. Como o que lhe restava. “Vivo mais tu porque tu é tudo pra mim”, ele repetia, “Tu é minha irmã, minha mãe que já morreu”. Um passou a morar no outro, como previu o poeta Mario Quintana. “E eu sentia que ele era a minha família”, abraça Rosa.
Ela fez o que pôde. Até colocava os ANTIRRETROVIRAIS “no comer”, para ver se o pescador aceitava o tratamento. “Tem que se habituar. Se der ânsia de vômito, come alguma coisa, até o organismo se acostumar”, defende.
Uma história bonita
O casal enfrentou as internações determinadas pela AIDS ao tempo em que realizava um sonho improvável: Rosa e o pescador tiveram uma menina, liberta do vírus HIV. A filha tem 11 anos e é uma espécie de anjo. “Ela esteve aqui, se despedindo do pai: ‘Queria que o senhor ficasse com minha mãe e eu, mas o senhor tá sofrendo. Se Deus quiser levar o senhor pra morar no céu, mais sua mãe e sua irmã, pode levar que fico satisfeita'”, narra Rosa.
Desde o primeiro turno das eleições, a mulher fazia vigília na porta da UTI do São José. Ainda que o pescador estivesse em coma, Rosa se achegava, beija-lhe a mão e trazia notícias do mundo lá fora. “É muito importante o carinho, a conversa. A gente cuidar. Ele, em cima da maca pra ir pra UTI, e me chamando, pedindo pra eu segurar a mão dele”, pausa. “Tem que ser assim, um dá a mão ao outro”, completa.
É o que compreende sobre o amor. “O amor é uma coisa muito importante. Esse pessoal novo não sabe o que é o amor. Pra esse pessoal novo, é ficar um dia, no outro, cada qual pro seu lado. O meu amor com ele foi diferente, foi real. O amor de duas pessoas que iam terminar juntos, como estamos terminando. E é assim”, conclui.
Por isso, Rosa se mantinha de pé – à força dos ANTIRRETROVIRAIS (que não descuida de tomar), dos profissionais do São José e dos voluntários do Grupo de Apoio Girassol (que borboletam pelas enfermarias) -, na beira da cama, enquanto o barco do seu pescador saía de madrugada. “Tem que ser firme”, encara. Serenamente, havia escolhido uma blusa e uma calça de linho brancas, “do jeito que ele queria. Porque ele dizia que, quando morresse, queria ir todo de branco”.
O pescador se converteu em saudade. Saudade é o amor reinventado. Redimido. “Tô bem calma porque o que tive de conversar com ele, conversei. Pedi perdão por alguma coisa e perdoei as coisas que ele falava quando tava raivoso. Perdoei tudo e disse que ele fosse descansar em paz”, e o pescador morreu três dias depois da entrevista que alinhava esta matéria.
Mas esta não é uma história triste. “Hoje, temos duas casas. Ele deixou 32 lotes de terra, pra mim administrar. Não deixou eu sem nada, sem saber o que fazer. Ele me deu tudo e mais do que eu não tinha, que foi a paz. Foi bonita, a minha vida mais ele”, folheia Rosa. É um amor que aconteceu. E amor não está isento de dor, pelo contrário, ele a suporta. Por isso, a inversão no título: na tristeza e na alegria, na doença e na saúde (o amor é subversivo).
O que
Entenda a notícia
A trajetória de um amor, contada com a simplicidade e a certeza de Rosa, mulher de pescador: “O que tenho pra dizer pras pessoas que ‘vevem’ juntos, como eu e ele, que somos soropositivos, é que lutem por esse amor. Porque isso é muito importante”.
Independente da AIDS, esta é uma história de amor!
PARA SABER
O número estimado de soropositivos, no Brasil, é de 630 mil pessoas. Por ano, 33 mil a 35 mil novos casos de AIDS são notificados no País.
O Sudeste, com 59% do total de notificações, é a região que tem o maior percentual de casos – considerando o acumulado, de 1980 (quando surgiu, no Brasil) a junho de 2009. O Nordeste concentra 12%.
Em 1986, para cada 15 homens infectados pelo HIV, havia um caso entre as mulheres. A partir de 2003, ocorre a “feminização” da AIDS: a cada 15 casos em homens, passaram a existir 10 em mulheres.
Em ambos os sexos, as maiores taxas de incidência estão na faixa etária de 25 a 49 anos. Entre os jovens (de 13 a 19 anos), houve uma inversão de casos, desde 1998: para cada 8 homens infectados, existem 10 mulheres com o HIV.
No Ceará, a epidemia segue os rumos nacionais: crescimento dos casos entre mulheres e interiorização (número cada vez maior de pequenos municípios com casos notificados).
O primeiro caso, no Estado, foi em 1983. E, até abril deste ano (dados mais recentes), já se somavam 9.249 notificações – 70%, no sexo masculino.
No início da epidemia, em 1986, a razão masculino/feminino era de 11 homens para cada mulher. A partir de 2005, passou a ser de 1,9 homens para cada mulher.
Dos 184 municípios cearenses, 175 (95%) notificaram casos de AIDS, de 1983 a abril de 2010. Fortaleza concentrou 62,3% do total.
Em 2009, as faixas etárias de 30 a 39 anos e de 40 a 49 anos registraram as maiores taxas de incidência da doença.
Com o crescimento dos casos de AIDS em mulheres na idade reprodutiva, aumentou-se a incidência em menores de 13 anos, pela transmissão vertical. Até abril passado, havia 248 casos nesse perfil (2,7% do total).
Fontes: Ministério da Saúde (www.saude.gov.br) e Secretaria da Saúde do Estado do Ceará (www.saude.ce.gov.br)
Ana Mary C. Cavalcante
O POVO – CE | FORTALEZA







