AIDS:Crença que mata
Crendices e tradições arraigadas ajudam a disseminar HIV em Moçambique e outros países africanos Roberta Jansen Enviada especial MAPUTO, Moçambique Loredana, de 17 anos, tem um caderno de capa...
Crendices e tradições arraigadas ajudam a disseminar HIV em Moçambique e outros países africanos
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- Minha mãe é curandeira e mandava meu pai dormir conosco para ser rica e ter saúde – explica numa voz quase inaudível e os olhos fixos em um ponto qualquer da parede por sobre o ombro do interlocutor.
- Estou muito melhor aqui – conta, as palavras ganhando entonação e, o olhar, um foco específico. – E posso estudar todos os dias. Eu quero ser médica. Ou cantora.
- Mostramos os curandeiros charlatães que dizem que podem curar a doença usando lâminas sem assepsia, por exemplo, mas também mostramos que existe o curandeiro mais consciente, que encaminha os pacientes para o posto de saúde – conta Caroline Menezes, sócia da Cinevideo e produtoraexecutiva da novela.
- Existe o mito disseminado de que a relação com uma virgem vai livrar o homem do HIV – conta Cecília Tembe, a coordenadora do centro. – E há curandeiros que dizem que, se um homem dormir com sua filha, o tratamento vai correr bem. E ele ainda vai ficar rico.
- Alguns curandeiros dizem que o sangue de um animal pode livrar o homem do vírus, mesmo que ele tenha feito sexo sem CAMISINHA. Mas outros recomendam a relação com a filha virgem – confirma Nacima Figia, coordenadora de Direito da Mulher e da Criança da ONG Actionaid.
- Alguns deles garantem que quanto mais nova for a menina, mais fácil o vírus sai do corpo dele e ele fica curado – conta Paula Vera Cruz, coordenadora nacional do Comitê da Mulher e do Jovem. – Há casos de abuso de meninas de dois anos de idade.
- O abuso da rapariga é comum a vários países da região – atesta Nacima. – E, muitas vezes, começa no seio da família.
- Meu pai queria dormir comigo porque eu estraguei uma coisa lá em casa – conta. – Ele queria fazer isso sempre quando minha mãe não estava. Eu não quero voltar para casa.
- Um brasileiro, em média, tem mais parceiros sexuais ao longo da vida, mas elas não são concomitantes – explica Lucas Bonanno, coordenador da Agência de Notícias de Resposta à SIDA de Moçambique, especializada em divulgar informações sobre a epidemia. – Os moçambicanos têm menos parceiras, mas são relacionamentos longos, estáveis e que acontecem ao mesmo tempo. É comum o sujeito ter várias casas. E não é raro que a mulher tenha vários “amigos” também.
- Ele levou dois anos para fazer o teste.
- Você não consegue inserir o PRESERVATIVO nestas relações porque essas pessoas se conhecem há anos, têm relacionamentos estáveis – explica Cysne. – O que sabemos sobre AIDS não funciona para esses casos. Precisamos fechar essa janela infecciosa. Mas como? A pobreza disseminada potencializa a questão cultural. É uma prática disseminada o sexo em troca de pequenos presentes, como telefones celulares e roupas de grifes caras. As moças que usam os cobiçados jeans de cintura baixa são chamadas, na gíria de Maputo, de “tchunga baby”, ou seja, elas têm um parceiro mais velho e mais endinheirado, que lhes dá presentes.
- Do ponto de vista da disseminação da doença, tudo isso poderia estar acontecendo sem problemas, se eles usassem o PRESERVATIVO – constata Lucas. – Mas é uma cultura que acabou unindo o sexo à infecção.
O GLOBO-RJ | Editoria: | Pág. | Dia / Mês/Ano: |
SAÚDE |
| 06/SETEMBRO/09 |
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