CEOs gays preferem o silêncio para evitar a exposição da empresa

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Executivos Gay guardam silêncio sobre sua sexualidade para evitar “problemas”.

Por qua­se du­as déca­das, a exe­cu­ti­va da Ernst & Young, Beth Bro­o­ke, per­cor­reu o es­critório co­mo se ele fos­se um cam­po mi­na­do, evi­tan­do as con­ver­sas ao be­be­dou­ro por te­mer que al­guém a dei­xas­se em­ba­raçada com al­gu­ma per­gun­ta pes­so­al. Ela diz que os co­le­gas co­chi­cha­vam pe­los can­tos que ela era uma “so­litária”, aba­la­da por um possível divórcio, ou tal­vez re­clu­sa por na­tu­re­za.

Mas Bro­o­ke es­ta­va fi­can­do can­sa­da de se es­con­der, es­pe­ci­al­men­te após ser son­da­da pa­ra co­man­dar os es­forços de di­ver­si­da­de e in­clusão da com­pa­nhia. Por­tan­to, no ano pas­sa­do, en­quan­to pre­ga­va a sin­ce­ri­da­de em um vídeo pa­tro­ci­na­do pe­la em­pre­sa pa­ra a cam­pa­nha “It Gets Bet­ter”, ela re­es­cre­veu o ro­tei­ro.

SOU GAY

“Sou gay”, dis­se ela, olhan­do di­re­to pa­ra a câme­ra. “E ve­nho li­dan­do com is­so há mui­tos anos.”

 As­sim co­mo Bro­o­ke, 53, uma vi­ce-pre­si­den­te glo­bal de políti­cas públi­cas, al­guns al­tos exe­cu­ti­vos estão bo­tan­do o pé pa­ra fo­ra do armário.

 Mui­tos des­cre­vem su­as ex­pe­riênci­as de re­ve­lação da con­dição gay co­mo ines­pe­ra­da­men­te in­do­lo­res – a mai­o­ria diz que se de­pa­rou com um apoio im­pres­si­o­nan­te. Eles afir­mam que o de­sem­pe­nho no tra­ba­lho au­men­tou por­que se sen­tem mais à von­ta­de en­tre os co­le­gas.

O que é que isso tem a ver com trabalho? Com competência, com capacidade de gerir. Tive uma gerente gay (Lúcia, no Le Masque) que fazia a terra tremer quando alguém deixasse de andar na linha. Inclusive eu! brrrrrrrrrrrrrr

 “A vi­da re­al­men­te me­lho­rou”, diz Bro­o­ke.

Mas se os gay estão ten­do uma acei­tação mai­or na vi­da cor­po­ra­ti­va, por que tan­tos exe­cu­ti­vos gra­du­a­dos fa­zem se­gre­do de sua Se­xu­a­li­da­de?

Ser gay no mun­do dos negóci­os ain­da está lon­ge de ser uma questão “ir­re­le­van­te”, afir­ma De­e­na Fi­das, vi­ce-di­re­to­ra de pro­gra­mas cor­po­ra­ti­vos da Hu­man Rights Cam­paign, o mai­or gru­po de de­fe­sa dos di­rei­tos das lésbi­cas, gay, bis­se­xu­ais e Transgêne­ros dos Es­ta­dos Uni­dos. As com­pa­nhi­as le­gal­men­te ain­da po­dem de­mi­tir um tra­ba­lha­dor por ele ser gay em 29 es­ta­dos ame­ri­ca­nos, por ex­em­plo, e mui­tos pre­con­cei­tos su­tis per­sis­tem no am­bi­en­te de tra­ba­lho, se­gun­do o gru­po.

Não há um úni­co exe­cu­ti­vo-che­fe de­cla­ra­da­men­te gay na “For­tu­ne 1000” [ a lis­ta das mil mai­o­res em­pre­sas ame­ri­ca­nas], se­gun­do a Hu­man Rights Cam­paign. (O úni­co exe­cu­ti­vo-che­fe de­cla­ra­da­men­te gay, o ex-pre­si­den­te da Ur­ban Out­fit­ters Glen Senk, dei­xou a com­pa­nhia em ja­nei­ro e ho­je co­man­da a va­re­jis­ta de joi­as Da­vid Yur­man.)

Is­so não quer di­zer que não exis­tam CE­Os gay nes­se gru­po, ob­ser­va Kirk Sny­der, um con­sul­tor es­pe­ci­a­li­za­do em di­ver­si­da­de que tra­ba­lha com em­pre­sas da “For­tu­ne 500” e já es­cre­veu vári­os li­vros so­bre a Ho­mos­se­xu­a­li­da­de no lo­cal de tra­ba­lho. Com ba­se em su­as pes­qui­sas e con­ta­tos do se­tor, ele afir­ma co­nhe­cer pe­lo me­nos 10 CE­Os que ain­da não saíram do armário. “Eles te­mem ser boi­co­ta­dos pe­los con­su­mi­do­res se sou­be­rem que a com­pa­nhia é co­man­da­da por um CEO gay.”

 O ex-pre­si­den­te-exe­cu­ti­vo da BP John Brow­ne, que per­deu o car­go em 2007 em meio a re­ve­lações de que men­tiu em um tri­bu­nal so­bre co­mo co­nhe­ceu seu ex-na­mo­ra­do, diz que não se re­ve­lou du­ran­te o período em que tra­ba­lhou na gi­gan­te do pe­tróleo por te­mer pre­ju­di­car su­as re­lações pro­fis­si­o­nais – es­pe­ci­al­men­te no Ori­en­te Médio, on­de o Ho­mos­se­xu­a­lis­mo é pu­ni­do com a mor­te em al­guns países.

“Achei que iria pre­ju­di­car tu­do”, ex­pli­ca.

No fi­nal das con­tas, ele po­de ter per­di­do um cli­en­te ou dois, mas o so­fri­men­to co­brou um preço mai­or. “Você es­con­de coi­sas. É uma vi­da du­pla”, afir­ma. Ou­tro fa­tor que também im­pe­de exe­cu­ti­vos de se re­ve­la­rem são as cul­tu­ras cor­po­ra­ti­vas e os con­se­lhos “ho­mofóbi­cos”.

“As cor­po­rações são mui­to con­ser­va­do­ras e quan­to mai­or a em­pre­sa, mais con­ser­va­do­ra”, acres­cen­ta Brow­ne.

Rick Welts foi CEO e pre­si­den­te do Pho­e­nix Suns – um ti­me de bas­que­te da Na­ti­o­nal Bas­ket­ball As­so­ci­a­ti­on (NBA) – quan­do as­su­miu ser gay no ano pas­sa­do, e sa­be mui­to bem o que é se es­con­der em um am­bi­en­te con­ser­va­dor. O mais bem-su­ce­di­do exe­cu­ti­vo do se­tor es­por­ti­vo a se de­cla­rar gay até ago­ra, Welts, 59, diz que man­te­ve sua Ho­mos­se­xu­a­li­da­de em se­gre­do pa­ra pro­te­ger a ima­gem de sua equi­pe e sem­pre so­fria em silêncio quan­do co­le­gas fa­zi­am pi­a­das so­bre ho­mos­se­xu­ais.

“A últi­ma coi­sa que al­guém em uma po­sição co­mo a mi­nha quer fa­zer é afe­tar ne­ga­ti­va­men­te a com­pa­nhia pa­ra a qual tra­ba­lha e lu­ta to­dos os di­as pa­ra pro­mo­ver”, diz ele, ho­je pre­si­den­te e di­re­tor ope­ra­ci­o­nal do ti­me de bas­que­te Gol­den Sta­te War­ri­ors.

De­ve ser por is­so que você ou­ve di­zer que as pes­so­as “sa­em do armário na fes­ta de apo­sen­ta­do­ria”, afir­ma Todd Se­ars, fun­da­dor do Out on the Stre­et, um en­con­tro LGBT anu­al so­bre li­de­rança na indústria fi­nan­cei­ra. (Ou mes­mo mais tar­de: quan­do a pri­mei­ra mu­lher as­tro­nau­ta dos EUA, Sally Ri­de, mor­reu di­as atrás, seu obi­tuário re­ve­lou que ela te­ve uma par­cei­ra por 27 anos.)

A an­si­e­da­de cons­tan­te po­de atra­pa­lhar o de­sen­vol­vi­men­to pro­fis­si­o­nal, es­pe­ci­al­men­te pa­ra os ad­mi­nis­tra­do­res, se­gun­do afir­ma o psicólo­go clíni­co Rit­ch Sa­vin-Wil­li­ams, que co­man­da o La­bo­ratório de Se­xo u0026amp; Iden­ti­da­de Se­xu­al da Cor­nell Uni­ver­sity. A ener­gia que se gas­ta so­fren­do com per­gun­tas sim­ples co­mo “o que você vai fa­zer nes­te fim de se­ma­na?”, ou por que al­guém che­ga só a uma fes­ta da com­pa­nhia, po­de afe­tar o tra­ba­lho, afir­ma.

Beth Bro­o­ke diz que ho­je os líde­res estão sob uma pressão cres­cen­te pa­ra se­rem “autênti­cos” com os co­le­gas, o que fre­quen­te­men­te sig­ni­fi­ca de­mons­trar vul­ne­ra­bi­li­da­de – uma ta­re­fa es­pe­ci­al­men­te ten­sa pa­ra tra­ba­lha­do­res não as­su­mi­dos.

Mark Stephanz, 50, vi­ce-pre­si­den­te do con­se­lho de ad­mi­nis­tração do Bank of Ame­ri­ca Mer­rill Lyn­ch, diz que fi­nal­men­te de­ci­diu ad­mi­tir ser gay em 2007, por­que não que­ria co­lo­car so­bre seus três fi­lhos o far­do de pre­ci­sar man­ter um se­gre­do na es­co­la, on­de eles in­te­ra­gi­am com fi­lhos de seus cli­en­tes.

As­su­mir-se di­an­te da em­pre­sa on­de tra­ba­lhou por déca­das foi um pro­ces­so de­li­ca­do e emo­ti­vo, mas ele diz que fi­cou ali­vi­a­do ao des­co­brir que “a mai­o­ria das pes­so­as con­ti­nua tra­tan­do você da mes­ma ma­nei­ra que an­tes”.

Brow­ne, 64, diz que se ar­re­pen­de de não ter as­su­mi­do an­tes. Ele acre­di­ta­va que man­ter o tra­ba­lho se­pa­ra­do dos as­sun­tos pes­so­ais era me­lhor pa­ra os dois mun­dos, mas ho­je dis­cor­da des­sa fi­lo­so­fia. Stephanz afir­ma que seu mai­or de­sa­fio tem si­do li­dar com os cli­en­tes, que nem sem­pre são re­cep­ti­vos. Ago­ra, ele cos­tu­ma le­var o na­mo­ra­do em ati­vi­da­des re­la­ci­o­na­das ao tra­ba­lho, mas evi­ta is­so quan­do sen­te que po­derá co­lo­car um cli­en­te “em po­sição des­con­fortável”.

Lloyd Blank­fein, pre­si­den­te-exe­cu­ti­vo do Gold­man Sa­chs Group, que des­cre­ve as políti­cas de seu ban­co amigáveis aos gay co­mo cru­ci­ais pa­ra a ma­nu­tenção de ta­len­tos, dis­se du­ran­te a con­ferência Out on the Stre­et, em maio, que per­deu pe­lo me­nos um cli­en­te des­de que re­ve­lou pu­bli­ca­men­te que apoia o ca­sa­men­to gay. “Sem­pre há um preço a pa­gar, mas não me im­por­to.”

(Tra­dução de Ma­rio Za­ma­ri­an)

  

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