Maconha: Em defesa da ciência, por Dartiu Xavier da Silveira*
AVISO IMPORTANTEEste texto é informativo e não substitui avaliação médica. Eu escrevo também a partir da minha experiência como paciente, mas decisões sobre exames, diagnóstico e tratamento devem ser...
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AIDS, Maconha
05/08/2010
A maconha tem sido utilizada há séculos por suas propriedades terapêuticas e seu uso medicinal vem crescendo em diversos países graças à possibilidade de verdadeiros pesquisadores testarem suas hipóteses. É assim que caminha a ciência. Em inúmeras áreas, principalmente na medicina, observamos que barreiras moralistas e preconceituosas são derrubadas dando lugar a descobertas muito importantes. É o caso dos estudos com as células-tronco. No campo da dependência de drogas, o cenário é o mesmo. Têm sido muito animadores os resultados obtidos a partir de centenas de pesquisas científicas sérias comprovando a eficácia do uso de princípios ativos da maconha no tratamento de múltiplas doenças, tais como glaucoma, dor crônica, ansiedade, câncer, AIDS e esclerose múltipla. Como pesquisador da Universidade Federal de São Paulo, há muitos anos oriento teses e publico artigos sobre o potencial terapêutico da cannabis. Esta investigação pressupõe, por óbvio, reconhecer também os riscos relacionados ao uso indevido desta droga. Desta forma, causou-me surpresa tomar conhecimento da polêmica no jornal Zero Hora a partir de um trabalho de minha autoria, publicado há mais de 10 anos em uma conceituada revista científica americana, sobre o uso terapêutico de cannabis em dependentes de crack (Journal of Psychoactive Drugs, 1999). Maior espanto foi constatar que fui atacado pessoalmente por um profissional da medicina em um tom tão desagradável que sequer merece resposta. Meu estudo com dependentes de crack foi de natureza observacional. O acompanhamento destes pacientes mostrou, surpreendentemente, que a estratégia de substituir o crack pela maconha, por iniciativa dos próprios dependentes, efetivamente funcionava. 68% destes dependentes conseguiram abandonar o uso de crack. Posteriormente, deixaram também de utilizar a maconha. Quanto à seriedade científica deste trabalho, ele não somente foi publicado pela reconhecida revista científica americana como foi elogiado por prestigiados pesquisadores nacionais e internacionais. As críticas desfavoráveis que recebeu, entretanto, nunca produziram um só artigo científico. Não se trata de ser contra ou a favor do uso de maconha. Trata-se, sim, de ampliar o conhecimento que temos sobre as propriedades neuroquímicas das substâncias e seus efeitos no cérebro, de forma a permitir o desenvolvimento de novos tratamentos com maior eficácia. A postura científica de pesquisa pressupõe isenção de crenças pessoais, preconceitos e ideologias, o que eventualmente nos coloca frente a constatações surpreendentes. Por fim, destaco que o Brasil conta com grandes pesquisadores na área de drogas, com projeção internacional, que têm opiniões bastante diferentes das divulgadas neste jornal, além de se destacarem por uma postura eticamente impecável. ZERO HORA – RS | POLITICA |
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