Um reino sem contos de fadas
O GLOBO | ESPORTES AIDS | DOENÇAS SEXUALMENTE TRANSMISSIVEIS 25/06/2010 Vila de Morija, a 45 quilômetros da capital, Maseru, é exemplo do Lesoto, que quer ser anexado à África do Sul. No país, com...
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| O GLOBO | ESPORTES AIDS | DOENÇAS SEXUALMENTE TRANSMISSIVEIS 25/06/2010 Vila de Morija, a 45 quilômetros da capital, Maseru, é exemplo do Lesoto, que quer ser anexado à África do Sul. No país, com pouco mais de 1,8 milhão de habitantes, 23,8% vivem com o vírus HIV Jorge Luiz Rodrigues Enviado especial • MORIJA, Lesoto Quase todas as noites, Mailoa Makune é um dos 237 milhões de habitantes do continente africano que vão para cama com fome. Ele tem 56 anos, jamais teve aparelho de TV, fogão e geladeira. Usa parafina para acender o fogo e sua alimentação diária é à base de uma sopa ou de um creme feito com espinafre. Almoço e jantar no mesmo dia representam sonho distante. Ele não se lembra da última vez em que pôde comprar um pedaço de carne. O caso de Mailoa não é exceção na vila de Morija, a 45 quilômetros de Maseru, a capital do Lesoto, pequeno reino encravado na África do Sul, com 30.355 quilômetros quadrados e pouco maior do que o estado de Alagoas. Ali, um terço das casas não tem luz elétrica. Copa do Mundo, para quase metade dos cinco mil habitantes, só no radinho de pilha. Isso quando há dinheiro para comprar as pilhas. – Como está o Brasil na Copa do Mundo? – pergunta Mailoa, enquanto segura uma grande caneca de um tipo de cerveja caseira, que ele faz para vender por 4 malotis (um real) e também beber. Eletricidade: um divisor Duas casas abaixo, Mpoli Bohelesi tem curiosidade em saber o que um brasileiro faz ali, enquanto recolhe galhos secos de árvore para preparar a fogueira que irá aquecê-lo na noite com previsão de dois graus negativos. Ele mora a menos de 50 quilômetros da fronteira com a África do Sul e a 180 quilômetros de Bloemfontein, uma das sedes do Mundial, mas diz que não teve curiosidade em “saber melhor qual é a emoção de uma Copa do Mundo.” – A última vez que eu vi futebol na TV foi há uns três meses, quando fui à igreja, estava passando um jogo antes, e olhei por uns 15 minutos. Como você pode ver, não tenho TV – mostra o trabalhador rural, de 55 anos, apontando para sua casa feita com barro e telhado de palha, na hora de começar a partida entre Inglaterra x Eslovênia, quarta-feira passada. Três quilômetros montanha acima, onde não parece existir moradia, há cerca de 20 casas, todas sem luz elétrica, como as de Mailoa e Mpoli. Lá, dona Mapule nunca ouviu falar de Copa do Mundo. O acesso à luz elétrica representa um divisor nas vidas dos habitantes de Morija. O jovem Refuoe Makana, de 21 anos, já faz parte de outra geração, que adora futebol. Tem TV em casa. Estudante, ele está por completar o nível médio, e conhece bem o futebol: – Por que o senhor Dunga não convocou o “Ronaldino”? – pergunta, ficando surpreso com a resposta de que o treinador considera Júlio Baptista melhor do que o craque do Milan: – Você está me gozando… Refuoe é o caçula de quatro irmãos e trabalha nas horas de folga como guia da pousada de Morija. Há quatro anos, perdeu o pai, que morreu aos 49 anos. – Não sei direito do que ele morreu. Trabalhava em construção e acho que foi alguma coisa relacionada ao cimento – disse ele, visivelmente desconfortável e já mudando de assunto. – Será que o Brasil vai ser campeão do mundo? Outro desconforto para os moradores de Morija é falar sobre os índices de contaminação por HIV no Lesoto. O reino, que se tornou independente em 1966, deixando de ser protetorado da Grã-Bretanha, tem 23,8% de sua população de pouco mais de 1,8 milhão de habitantes vivendo com o vírus HIV. O menor dos 53 países africanos é o terceiro em percentual de AIDS no mundo, atrás apenas da Suazilândia e de Botswana, outras duas nações africanas dizimadas pela doença. No fim de maio, milhares de pessoas marcharam, em Maseru, num protesto para pedir ao Rei Letsie III que solicite ao governo da África do Sul a anexação de todo o território do Lesoto. Uma petição, com 30 mil assinaturas, foi entregue ao Parlamento e à Alta Comissão do reino, sob a alegação de que a AIDS está dizimando a economia e baixou a expectativa de vida para 34 anos. Há mais de 400 mil órfãos da AIDS num país que, em 1980, produzia 80% de seus cereais, mas, hoje, importa 70% de seu consumo. Apesar da paridade com o rand sul-africano, um trabalhador de fábrica em Bloemfontein recebe, em média, 2.400 rands (R$ 600) mensais, contra 700 maloti (R$ 175) pela mesma atividade em Maseru, distante apenas 135 quilômetros. Há o agravante de que, nos últimos dois anos, houve uma invasão de trabalhadores de Taiwan nas fábricas têxteis da capital do Lesoto. Os números oficiais falam em quatro mil taiwaneses, mas, em Maseru, guias turísticos garantem que esse número é, no mínimo, o dobro. Beckham e Capello ajudam Quarta-feira passada, na fila da imigração, num subúrbio de Maseru, a quatro quilômetros da fronteira, onde cada estrangeiro paga 500 maloti (R$ 125) por um visto de até 90 dias, havia seis taiwaneses aguardando pelo carimbo no passaporte. Isso porque o Lesoto conseguiu acordos com países, como os Estados Unidos, que não cobram taxas por suas exportações. Mas o impacto da AIDS afetou até a indústria têxtil, daí um motivo a mais para os chineses e taiwaneses enxergarem uma porta aberta para a expansão. Neste cenário, há quem trabalhe na conscientização de crianças e jovens. O inglês Pete Fleming, co-diretor-executivo da Kick4Life, chegou ao Lesoto em meados de 2007 para um projeto de associação do futebol com a conscientização na prevenção do HIV. Desde então, a ONG, sediada num bairro de Maseru, testou 18 mil jovens, entre 14 e 16 anos. Cerca de 85% deles fizeram o exame pela primeira vez e 4,7% deram resultado positivo para o HIV, um percentual alto para a idade. Há a integração desses com os demais, tentando reduzir o impacto negativo da notícia e dando esperança, orientação e encaminhamento para tratamento com RETROVIRAIS. – O futebol é a chave do sucesso. Há muitos projetos sociais envolvendo o futebol, que tem um sentimento importante – diz Fleming, que tem o técnico italiano da seleção inglesa, Fabio Capello, e o astro David Beckham como embaixadores da ONG. – O senhor Capello esteve aqui na semana passada para uma visita. Pete Fleming mira o Brasil e pretende abrir uma frente da ONG em alguma favela carioca, não para trabalhar na prevenção da AIDS, mas, sim, com capacitação profissional de jovens, visando à Copa do Mundo2014 e aos Jogos Olímpicos2016. Enquanto isso, faz sua parte, tentando diminuir o efeito devastador que afeta o pequeno reino africano, um drama ainda pouco conhecido por grande parte do resto do mundo. |
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