Os laboratórios e a clientela de babuínos
O Globo Editoria: Pág. Dia / Mês/Ano: Opinião 05/DEZEMBRO/07 Os laboratórios e a clientela de babuínos ELIO GASPARI Há poucos dias o laboratório Schering foi condenado pelo Superior...
O Globo | Editoria: | Pág. | Dia / Mês/Ano: |
Opinião |
| 05/DEZEMBRO/07 |
Os laboratórios e a clientela de babuínos
ELIO GASPARI Há poucos dias o laboratório Schering foi condenado pelo Superior Tribunal de Justiça a indenizar em R$ 1 milhão as mulheres que, em 1998, compraram suas pílulas ANTICONCEPCIONAIS Microvlar e engravidaram. Não podia ser diferente, pois tomaram bolotas de farinha. Numa trapaça do tempo, a condenação do Schering ocorre logo quando o laboratório EMS se viu apanhado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária vendendo o CONTRACEPTIVO injetável Contracep com a fórmula alterada. Quatro mulheres dizem ter engravidado depois de tomar a droga. O primeiro comentário dos doutores do laboratório foi de que discordavam das razões técnicas da Anvisa. Resta saber se eles discordam dos casos de gravidez. Espera-se que laboratórios respeitem padrões técnicos para fabricar seus produtos. Como ninguém pode julgar a qualidade de um remédio pela sua aparência, confia-se em marcas e nas recomendações dos médicos. Vendo-se a reação passada do Schering e a presente do EMS, devese suspeitar de que eles consideram seus clientes uma espécie melhorada de babuínos. Na sua defesa contra as grávidas das pílulas de farinha, o Schering fez duas gracinhas. Numa, sua matriz alemã acusou o então ministro da Saúde, José Serra, de agir com interesses eleitorais, pois FFHH disputaria a reeleição meses depois. A outra está no texto da defesa que apresentou ao STJ. Entre os muitos argumentos, disse que a farinha das pílulas resultou num fato positivo, pois ela gerou "novas vidas". Deboche. Um laboratório vende um anticoncepcional, ele falha, e a patuléia têm mais é que se conformar, pois graças a isso nasceram crianças. Se os doutores da Schering trabalhassem no serviço de divulgação da encíclica "Humanae Vitae", pela qual o Papa Paulo VI condenou a pílula, estariam cobertos de razão. Contudo, eles ganham dinheiro, e muito, vendendo contraceptivos. À época da malfeitoria, Microvlar era a pílula mais popular no Brasil. Vendia 14 milhões de unidades. É um direito da Schering recorrer a todas as instâncias judiciais, mas a criançada que nasceu por conta do Microvlar de farinha acaba de completar oito anos. Pelo cheiro da brilhantina, as grávidas do EMS arriscam uma gestação judicial semelhante. Talvez essas empresas acreditem que os consumidores brasileiros têm cérebros de babuínos, porque, no pedaço do mundo onde o capitalismo funciona, eles não fazem esse tipo de brincadeira. Em 1999, quando as crianças da farinha Schering mal haviam nascido, a vigilância sanitária dos Estados Unidos autorizou a venda de um antiinflamatório de efeitos quase milagrosos, produzido pelo laboratório Merck. Chamava-se Vioxx. Um ano depois, a droga foi associada ao aumento de risco de ataques cardíacos. Em 2002, a viúva de uma de suas vítimas processou a empresa. Passados mais dois anos, o Merck tirou o Vioxx do mercado. Em 2006, viu-se condenado a pagar US$ 26 milhões à senhora que o processou. Pouco depois, os processos eram 6.400. Colecionando derrotas, o laboratório ofereceu um acordo a 47 mil vítimas. Custará US$ 4,85 bilhões. Em Pindorama, a responsabilidade social da empresa levou-a a informar à freguesia que estava pronta para reembolsála, no exato valor pago pelas caixinhas do remédio (R$ 21 a R$ 81, dependendo da dose).
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