Elas ainda sonham
Publicado em 14 de julho de 2010 (há 16 anos, 3 meses e 9 dias)Atualizado em 31 de julho de 2026 (há 2 meses e 22 dias) DOCUMENTO HISTÓRICO E ACERVO Nosso acervo conta com mais de 5.000 publicações....
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| JORNAL DE BRASILIA – DF | PROSTITUIÇÃO DOENÇAS SEXUALMENTE TRANSMISSIVEIS 14/07/2010 Elas ainda sonham Com um mundo livre do preconceito e da exclusão e com o direito de ter uma vida digna Ana Paula Leitão, especial para o Jornal de Brasília “As mulheres do ofício lavam as faces manchadas de sono e retocam o batom no espelho marcado de tempo. Todas elas que prometem prazer já estão à porta, à janela grande e velha, encostadas à espera daquele que não ficou de vir. E a casa verde fervilha lentamente sua sina de guardar segredos na vida, da vida”. O poema Casa Verde foi escrito por Leila Barreto, filha da prostituta Lurdes Barreto, de 67 anos, e fala sobre uma antiga casa de prostituição que hoje é a sede do Grupo de Mulheres Prostitutas da Área Central de Belém (Gempac). Leila é pedagoga e luta, junto com a mãe, pelos direitos das prostitutas. “Eu tenho uma visão bem clara (da prostituição) como trabalho, porque eu fui sustentada, e mamãe tinha horário, tinha postura. Mamãe sempre foi uma boa puta”. Para Leila, o maior problema sempre foi o preconceito da sociedade, que julga e cria modelos para os ditos filhos da puta. “A profissão da mamãe parece ser sempre um divisor de águas. Se a gente vai para a frente, é um milagre. Se gente vai para trás, é filho mesmo de uma prostituta. Esses aspectos são muito doentios da sociedade. Bastava comentar a profissão dela, a gente criava um problema, um diferencial”. O movimento de prostitutas realiza projetos para diminuir o preconceito, alertar sobre doenças e capacitar as prostitutas com o oferecimento de cursos de costureiras, manicures e cabeleireiras. Além disso, o grupo é referência no combate da exploração sexual de crianças e adolescentes. Fernando Guarani, 23 anos, coordena o grupo de combate à exploração sexual na infância e adolescência. Ele foi um dos participantes do projeto Ateliê da Vida, que recebe jovens e crianças que estão fora da escola, não têm lar, ou estão na criminalidade. “Foi a própria profissional do sexo, que era marginalizada, excluída da sociedade, que pensou não só no filho dela, mas também naqueles que não faziam parte do mundo dela e que sofriam muitas vezes a mesma exclusão social”. Guarani entrou no projeto Ateliê da Vida aos 16 anos, quando tinha parado de estudar e estava envolvido com gangues. Foi expulso duas vezes do colégio e chegou a ser preso. Dos 11 amigos que tinha, dez foram mortos na criminalidade. “Dentro do que hoje eu conheço da sociedade, com certeza eu estaria superlotando o presídio. Para você ver, da maioria que eu conhecia da época, só tem eu e mais um que está vivo, sendo que ele virou crente, e eu estou aqui, voltei a estudar”. Hoje, Guarani é professor de percussão no projeto, que atende a cerca de 80 adolescentes. SONHOS DE CINDERELA Faceira, extrovertida e batalhadora, a mulata de 49 anos está na prostituição desde os 13, quando começou a morar nas ruas. Cinderela, como é conhecida na zona, experimentou os desencantos da vida quando era menina de rua. A mulher foi acolhida pelo movimento de prostitutas do Estado do Pará, que se tornou um novo lar. “O Gempac significa, para mim, minha casa, uma casa que aguentou os filhos das prostitutas, afiliou as prostitutas, fez de nós mulher”. Cinderela saiu cedo da casa dos pais para trabalhar. Segundo ela, o apelido de Cinderela surgiu quando ainda era criança, época em que fazia balé. “Desde os 10 anos, quando eu estudava em escolinha, a nossa (educação) física era fazer balé, com aquela roupinha, e eu era a mais danadinha. Foi quando escutei aquela música da Ângela Maria, chamada C i n d e re l a “, lembra minutos antes cantar a canção que lhe traz lágrimas ao rosto. Nos sonhos de menina, Cinderela ainda guarda o desejo de encontrar o príncipe encantado. |
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