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Cura? Para ser honesto, eu Cláudio Souza, não penso em cura. Não para mim. Talvez para a Mara, e para todos os outros. Mas, para mim… Eu penso em ir vivendo…

Linfófico

Micrografia eletrônica de varredura de VIH-1, em cor verde, saindo de um linfócito cultivado.
Classificação científica
Grupo: Grupo VI (ssRNA-RT)
Família: Retroviridae
Género: Lentivirus
Espécies
Vírus da imunodeficiência humana 1
Vírus da imunodeficiência humana 2

SE ele monitorou por três meses e só deu positivo no terceiro mês das duas uma: ,

Ou ele é um mentiroso sádico. Ou é uma pessoa que corre frequentemente o risco de contrair HIV.

Há pessoas assim. Eu, vinte dois anos atrás era mais ou menos assim, com a diferença que eu jamais me preocupei com a possibilidade de contrair o HIV. Isso se dava porque eu nunca tive medo da morte e, na minha ignorância, acreditava que contrair HIV seria como ser atingido por um raio…

Acervo Digital VEJA - Digital Pages - 10

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O fato é que eu vi toda a agonia do Cazuza (que na minha opinião é O Mestre da Resiliência) e permaneci impermeável a todos os avisos que eu recebia, por todas as vias… Para dar uma ideia geral sobre a coisa, eu menciono uma ocasião onde eu estava num motel e, na hora da penetração eu bati com o olhar num lado da cama, uma pilha de preservativos, olhei, não sei porque, para o outro lado e, outra pilha de preservativos. Pensei:

Foda-se! Se pegar, pegou!

E peguei mesmo! Só não foi naquela relação, foi em outra, muito tempo depois, após um sem número de atos suicidas eu contraí HIV…

E foi aí que eu comecei a entender que “morrer de AIDS era, na época, um processo doloroso de paulatina degradação orgânica onde, por exemplo, eu corria o risco de permanecer vivo e perder a visão de um, ou dos dois olhos”…

Além disso, eu conheci uma pessoa, um cara… Um cara que eu, que, na época, pesava cem quilos e era basicamente de músculos, pensei: “Pow, para bater neste cara eu teria, antes, escalá-lo…  Mas ele teve uma infecção intestinal por criptococo, um agente etiológico que pode atacar também os pulmões, e passou a ter diarréias devastadoras e eu o vi, em 4 dias, perder quase 50% de seu peso (diarreia desidrata e o corpo humano é formado em sua composição por água em um volume de 65%) e morrer de maneira inapelável, sem que nada pudesse ser feito porque, até onde eu me lembro, não se sabia como combater o criptococo. Entenda a raiz etimológica do nome do agente: “Cripto”. Isso não o faz pensar em criptografia? Isso não o remete a indecifrável? Pois é… O criptococo também pode provocar uma meningite e extinguir uma vida humana em menos de 48 horas. “Felizmente eu tive duas meningites virais e, a primeira, acreditava-se, tinha sido causada pelo próprio HIV”.

O que, na verdade, foi um lance de sorte, pois eu estava com uma boa contagem de CD4 e, embora não houvesse a terapia combinada (o dito coquetel, que se tornou extremamente potente depois de se criarem os “Inibidores de Protease”, sendo que a protease era a fase final do ciclo de replicação do vírus (vírus não se reproduzem, são assexuados e precisam encontrar um “ambiente orgânico favorável” para que possam se replicar usando, como base, o mecanismo de duplicação celular. Ele, o HIV, após invadir a célula, “se desmonta” e, no processo, integra o seu RNA convertido em DNA ao DNA da célula (isso é irreversível) que passa a fabricar outros vírus.

Dito assim, parece uma coisa demorada. Na verdade, sem tratamento, isso acontece trilhões de vezes, talvez mais, todos os dias, causando a morte de células T CD4 (CD4 é o nome de um receptor celular necessário às funções da célula e eu não sei, porque não sou médico, qual a função original, mas que é uma das duas “fechaduras” que o HIV usa para “abrir a porta da célula”.

A outra fechadura é chamada de co-receptor CCR5. Existe uma mutação humana que existe, até onde eu fui informado, apenas em seres humanos “caucasianos” que não tem este co-receptor e isso levou à cura do “Paciente de Berlim”, que viveu o bastante para ter muita, mas muuuuuita sorte.

Ele contraiu HIV. E viveu não sei quanto tempo com HIV. Aí ele desenvolveu uma leucemia. Precisava de um transplante de medula e para se fazer este transplante não basta “apenas” encontrar um doador compatível; é preciso que o sistema imunológico (as células brancas, dentre as quais aquelas que são chamadas de CD4) seja dizimado por completo. O médico que fez este transplante, teve o capricho de arriscar tudo e conseguiu encontrar um doador compatível, com a mutação que eu já mencionei, e que só ocorre em 1% da população caucasiana e conseguiu fazer o transplante (que é, na verdade, uma medida desesperada de se tentar salvar uma vida, posto que de cada 5 procedimentos deste tipo, quatro acabam em óbito na operação ou no pós operatório. Todas as tentativas de replicar o processo acabaram em morte nas condições citadas ou no pós-operatório. Os que sobreviveram a estas duas etapas não viveram o bastante para se comprovar a eficiência do processo e eu digo, se me fosse oferecida esta “cura” tão arriscada eu passaria a vez porque, depois de tanto tempo vivendo sem medo da morte, eu ganhei tal amor pela vida que, para ser honesto, eu não penso em cura.

Não para mim. Talvez para a Mara. Mas, para mim…

Renata Cholbi: Tantum Nominum Nulum par Elogium

Renata Cholbi. Ativista de Direitos Humanos na luta contra a AIDS

Renata Cholbi: Tantum Nominum Nulum par Elogium

 

Eu temo um processo de perda de identidade (acho que depois de ler tudo isso que eu escrevi até agora, você sabe que eu estudei muito “a coisa” e, de alguma forma, aceitei minha condição e não penso na cura que pode aparecer amanha; penso no dia de hoje, em que busco fazer tudo direito, de uma forma que, quando eu me deite na cama, e se eu conseguir dormir (minha média de sono é de 4 a 5 horas por dia), merecer que Deus considere justo que eu viva mais um dia. Nada obstante, apesar de tudo, eu tenho planos que só podem ser realizados se eu viver pelo menos mais treze anos, para ver a minha cidade, São Paulo, completar 475 anos!

Isso porque eu utilizo a linha 4 do metrô em São Paulo e quando você atravessa os limiares de qualquer estação do metro que faça integração com a linha 4 a mudança de ambiente, a luminosidade, os painéis informativos e tudo o mais, até mesmo a energia que emana destes lugares é completamente diferente de tudo o que eu já vi em São Paulo e, se há uma cidade que eu conheça bem, é esta em que eu nasci.

Mas eu penso em cura… Para vocês que me leem e, infelizmente, forma colhidos pela infecção por HIV.

Eu gostaria de poder dar está notícia, talvez em primeira mão  🙂    (Vaidade das vaidades… É tudo Vaidade), e ficaria feliz se aparecesse, mas não sei se eu iria buscar a “minha cura…” Tudo isso eu escrevi para que as pessoas que alcancem estes escritos ponham duas coisas na cabeça.

Usem camisinha. Apesar de haver tratamento (perdoem-me os que já vivem nesta condição, eu busco aqui, um bem maior) a infecção por HIV é uma doença crônica, progressiva e degenerativa, com uma evolução diferente de paciente para paciente.

Sim, eu vivo há 22 anos com HIV e estou vivo. E, o que é mais! Eu faço uma hora de esteira com inclinação de até 14% e uma hora de musculação duas vezes por semana. E… mesmo assim, a meningite que foi “o lance de sorte que me facultou o diagnóstico”, deixou algo plantado em mim e já tem uns três ou quatro anos que venho vivendo com neuropatia periférica e, tudo isso que vocês leram aqui, foi digitado apenas com os dedos indicadores de cada mão, porque os nervos que controlavam os outros dedos ainda não estão mortos, mas já não conduzem os estímulos nervosos de maneira correta e eu mal posso assinar documentos…

A outra coisa é: “Teste-se”. Quanto mais cedo você for diagnosticado, melhores serão os prognósticos de sobrevivência e dificilmente alguém desenvolverá neuropatia periférica ou AIDS se mantiver uma rotina de sexo seguro e, mesmo assim (por que não) fazer este teste uma vez por ano, sei lá….

Quanto à sua pergunta, Guilherme, dez segundos não fariam diferença, mas tenha em mente que a transmissão do HIV depende de múltiplos fatores e entre eles estão por onde a doença tentou entrar, a que quantidade de vírus você foi exposto, e durante quanto tempo você ficou exposto.

Parece um bocado difícil contrair HIV e, entretanto, mais de trinta milhões de pessoas já perderam suas vidas por conta de consequências da infecção por HIV e, hoje, estima-se, há trinta e cinco milhões de pessoas infectadas nas regiões em que a Organização Mundial da Saúde pode mensurar e, enquanto isso, no Oriente Médio e na Ásia, o HIV se espalha como fogo sob a tundra, se vocês podem me entender, e eu temo muito pela gravíssima crise humanitária que este planeta assistirá se nada for feito para impedir isso, colocando-se de lado questões religiosas, morais e políticas, agindo apenas com humanismo e ética, mas não a ética certos “comitês de ética” que são favoráveis a pulhas e salteadores em todo o Planeta.

 

Gaia esta muito zangada conosco

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Mazel Tov :-)

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