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Talento dá a volta por cima
Escrito por Cláudio Santos de Souza 03 Julho 2009
Reunidos em uma associação, portadores de HIV desenvolvem a consciência de que o tempo não para e produzem peças de artesanato de muito bom gosto a partir de oficinas gratuitas
Elisa Tecles
As peças são produzidas com esmero pelos artesãos. O trabalho resulta em velas, camisetas, bijuterias, caixas e bolsas exclusivas feitas manualmente. Em comum, todos esses objetos têm a origem: surgiram das mãos de portadores do vírus HIV. A Associação Brasiliense de Combate à AIDS (Grupo Arco-íris) lança hoje mais uma ação para combater o preconceito e melhorar a qualidade de vida das pessoas em tratamento. O grupo vai inaugurar um show room montado com produtos feitos por artesãos atendidos pelo projeto Espaço de Arte e Saúde PositHIVa. O trabalho é realizado há dois anos com apoio da Petrobras e inclui cursos gratuitos de artesanato a portadores do HIV. O dinheiro arrecadado com a venda complementa a renda e incentiva os artesãos.
O acervo do show room é fruto da dedicação de cerca de 100 integrantes do grupo de trabalho da ONG. Entre eles, está a artesã Glória Jean, 44 anos. Com as oficinas gratuitas, ela aprendeu a fazer velas, pintura em tecido, customização de roupas e bordado. "Eu comecei aqui, nunca tinha feito isso. A primeira blusa ficou mais ou menos, mas aprendi rápido", comentou a artesã. Glória trabalhava como manicure, mas há quatro anos dedica-se aos trabalhos manuais. Ela foi infectada pelo HIV há nove anos e viu nos corredores de um hospital o cartaz da ONG Arco-Íris. Descobriu que poderia ganhar uma nova profissão e se inscreveu nas oficinas. "Tem que ter habilidade, paciência e ficar sempre praticando", aconselhou.
As peças expostas no show room são exclusivas e produzidas no ateliê do projeto. A intenção da loja não é só garantir uma renda extra aos artesãos, mas inseri-los no mercado de trabalho. "Ainda existe preconceito em relação à pessoa portadora do vírus HIV. Eles têm potencial muito grande e precisam de um emprego", ressaltou a presidente da ONG Arco-íris, Adilce da Conceição Silva. Além do preconceito, existe a dificuldade em conseguir trabalho com horário flexível para não faltar às consultas médicas.
A maioria das pessoas atendidas chega ao grupo sem nenhum conhecimento de artesanato. Elas fazem oficinas, que duram entre 36 e 72 horas, e partem para a prática. As aulas e o material usado são gratuitos, basta se inscrever e comprovar ser portador do HIV. Quando sobram vagas nos cursos, a prioridade passa para familiares de pessoas doentes. Nos últimos meses, a Arco-íris ofereceu oficinas de corte e costura, pintura em tecido, bordado, customização de roupas, biscuit e marchetaria, entre outros. Os alunos terminam os cursos aptos a tirar a carteira de artesão oferecida pelo governo local. Com o documento, eles têm acesso a crédito e podem dar início a um negócio próprio. O próximo curso é de corte e costura.
O aposentado José Ribamar Ferreira, 56 anos, é um dos autores das velas expostas no show room. Ele nunca havia feito um trabalho artesanal antes de conhecer o grupo Arco-Íris, há quatro anos. "Eu era vigilante, não conhecia nem a parafina de perto. Não pensava em trabalhar com isso de jeito nenhum", lembrou. Bastaram algumas aulas na oficina para Ribamar descobrir o talento para o ofício. De segunda a sexta, ele enche as formas com a parafina derretida em busca de novos modelo.
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